Culpa e narcisismo na tragédia moderna

Culpa e narcisismo na tragédia moderna

Ângela Buciano do Rosário*

Jacqueline de Oliveira Moreira**


Resumo

Objetiva-se a articulação entre narcisismo e culpa no contexto de uma sociedade pós-moderna. Para isso, apresentam-se duas vertentes do sentimento de culpa. Uma, como declínio da culpa em sua perspectiva civilizatória, correspondente na atualidade a uma organização social perversa e narcísica. Outra, como exacerbação desse sentimento em relação ao próprio sujeito, correspondente às exigências contemporâneas de beleza, fruição e juventude.


Palavras-chave: Culpa; narcisismo; pós-modernidade.


Introdução


Os conceitos de culpa e narcisismo sustentam lugar privilegiado na teoria psicanalítica e, nos dias atuais, têm sido tema de discussão principalmente no que se refere à importância na relação com o tema da alteridade. Discursos sobre a sociedade pós-moderna apontam para um mal-estar que se revela a partir de uma cultura narcisista (Lasch, 1983) e sua incidência nas subjetividades. Seja no que se refere à formação psíquica contemporânea orientada pelo narcisismo (Roudinesco, 2006), ou ao mal-estar da psicanálise com os imperativos da atualidade (Birman, 2005), ou ao consumismo como nova ordem em uma moral do espetáculo (Costa, 2005). E, até mesmo, a destituição do sujeito, já que o “sujeito” é o subjectus, o que é submetido, e nos dias atuais, não há o que sustente sua submissão (Dufour, 2005). Tais posicionamentos resultam em uma fragilidade do sujeito no contato com o outro, corroborando para o incremento de uma sociedade perversa.


Assim, pretendemos neste texto refletir sobre uma possível articulação entre narcisismo e culpa no contexto da sociedade pós-moderna1, considerando a culpa em duas vertentes e o narcisismo em sua dupla tipologia. Defendemos a tese de que o texto freudiano apresenta uma culpa promotora do laço social e uma ligada ao mal-estar, mais além do princípio de prazer. E no caso do narcisismo, é preciso estar atento para a distinção entre eu ideal - narcisismo primário - e ideal do eu - narcisismo secundário. Partiremos de dois pontos de vista a princípio contraditórios, mas que se mesclam e se desvelam nos novos arranjos sociais presentes na pós-modernidade.


Em um primeiro momento, o ponto de vista de que o declínio da culpa na sua vertente civilizatória, ou seja, aquela que promove o laço social como valor presente nas relações humanas, corresponde na contemporaneidade à configuração de uma organização social perversa e narcísica. Assim, partiremos da ideia de que a sociedade atual apresenta uma face perversa, buscando, pois, entender as cenas e enlaçamentos perversos da sociedade pós-moderna.


Em um segundo momento, trabalharemos com a ideia contraditória presente nesse mesmo conceito. Dessa vez, não mais trataremos do declínio da culpa, mas, da ideia de uma exacerbação desse sentimento em relação ao próprio sujeito. Enquanto a ausência da culpa aponta para uma desconsideração da dimensão da alteridade, o seu excesso estaria ligado ao narcisismo primário, que tem como consequência o mesmo desvanecimento da alteridade. Assim, o sujeito é desculpabilizado na sua relação com o outro e culpabilizado na sua relação consigo mesmo, por não responder a todos os signos de sucesso que elevam sua majestade - o eu à condição de eu ideal.


Estamos diante de uma perspectiva trágica no que se refere à relação eu-outro, pois um dos elementos definidores da tragédia é a ausência de saída, a inevitabilidade do acontecimento. O mundo pós-moderno parece reduzir inevitavelmente o campo da relação alteritária por duas vias: ou o outro é reduzido, porque ocorre uma diminuição da culpa do eu em relação ao outro, ou é diminuído, porque vivemos uma exacerbação do eu ideal fechado em sua magnitude de rei. Mas a tragédia moderna é idêntica à clássica?


Versa (2005), reconstruindo o raciocínio de Goethe, revela que a tragédia moderna se difere da grega. A tragédia clássica era regida pelo destino (sollen) e necessidade, enquanto a moderna seria regida pela liberdade e vontade (wollen). Essa mudança de sollen para wollen anuncia uma perda no potencial de tragicidade. Segundo Carlson (1997), “graças ao sollen, a tragédia se fez grande e poderosa; graças à caprichosa wollen, ela se fez fraca e insignificante, e seu poder dissolveu-se na indulgência e no capricho” (p. 175). Nesse sentido, a modalidade de tragédia que se impõe na relação entre o eu e o outro no mundo pós-moderno e anuncia o enfraquecimento do campo do outro pode ser considerada como caprichosa, ou seja, pode-se encontrar uma saída.


Assim, nosso objetivo é apresentar duas posições aparentemente contraditórias em relação à culpa; a desculpabilização em relação ao outro e a culpabilização em relação ao eu ideal, mas que apresentam o mesmo resultado, a saber: o enfraquecimento da relação com o campo alteritário.


1 Desculpabilização: “gosto de levar vantagem em tudo”


Embora o conceito de culpa perpasse praticamente toda a obra de Freud, recorreremos à discussão a partir dos textos das teorias da cultura desse autor. Tal recorte favorece nossa compreensão acerca do sujeito na sociedade pós-moderna, já que nesses textos o conceito de culpa está relacionado ao conflito presente entre as exigências individuais e as sociais.


Em Totem e tabu, Freud forja a tese de que a violência e a culpa são condição da cultura, relatando o mito do parricídio primordial. Nele é localizado o início da organização social, das restrições morais e da religião com o advento do ato criminoso, em que os filhos, subjugados pelo pai tirano, que de maneira violenta proibia o acesso às mulheres, unem-se e assassinam o pai. A consolidação do ato parricida se dá com a refeição totêmica. De acordo com Freud (1913[12] /1996) “Selvagens e canibais como eram, não é preciso dizer que não apenas matavam, mas também devoravam a vítima” (p. 145). Embora odiassem o pai, amavam-no e admiravam-no também, sendo o canibalismo o protótipo de um mecanismo de identificação.


O pai morto tornara-se mais forte do que vivo. Foi a partir do sentimento de culpa filial e da necessidade de preservar a comunidade que proibiram a morte do totem, substituto do pai, e renunciaram às mulheres, proibindo o incesto. É, portanto, o sentimento de culpa que une a sociedade a partir de um crime comum. Assim, para Freud, tanto a violência quanto a culpa são fundadoras da estrutura social.


Também em O mal-estar na cultura (1930/1996), Freud refere-se à violência e à culpa como condições de surgimento da cultura. Ele assevera que a inclinação para a agressão constitui no homem uma disposição instintiva original, autossubsistente e é o maior impedimento à civilização. Será o sentimento de culpa, o agente responsável pelo domínio desse perigoso desejo de agressão do indivíduo.


Freud define uma ordem primitiva da culpa que se revela na criança pelo medo da perda do amor dos pais. Esse primeiro estágio do sentimento de culpa se modifica a partir do Édipo, quando o lugar dos genitores é assumido pela comunidade humana. Trata-se do segundo estágio do sentimento de culpa, que se realiza quando a autoridade é internalizada com o estabelecimento do superego.


As duas origens do sentimento de culpa descritas por Freud nesse texto apontam a necessidade de renúncia pulsional. No entanto, com relação ao superego, a renúncia pulsional não basta, já que o desejo persiste e não pode ser escondido deste, acarretando o sentimento de culpa e a necessidade de punição. Nesse ponto, Freud delineia a origem dialética da consciência.


De início, a consciência é a causa da renúncia pulsional e posteriormente a relação se inverte. A renúncia2 torna-se uma fonte dinâmica de consciência e a cada nova renúncia, aumenta a severidade e intolerância dessa última. Assim, a consciência é o resultado da renúncia pulsional, e esta por sua vez cria a consciência que exige mais renúncias. É nesse sentido que Freud assevera que o sentimento de culpa, a severidade do superego, é o mesmo que a severidade da consciência. É a percepção que o ego precisa estar sendo vigiado e a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego.


Assim, a cultura como obra de Eros somente alcança seu objetivo a partir de um fortalecimento do sentimento de culpa. Porém, há um preço a pagar pela sua edificação: paga-se com a perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa.


Observamos na atualidade diversos atravessamentos sociais que incidem de maneira contundente no sujeito. Características como o individualismo exacerbado, a política neoliberal e o capitalismo buscando ocupar um lugar norteador das relações são observadas nas relações contemporâneas. Com os efeitos dos novos arranjos sociais, balizados por tais características, vislumbramos uma nova configuração que incide substancialmente na subjetividade contemporânea.


Com Freud, vimos que o sentimento de culpa é estruturante do psiquismo e condição de possibilidade do surgimento da cultura. Nesse sentido, quais seriam os efeitos do esvanecimento da culpa na cultura contemporânea? É possível afirmar que a sociedade pós-moderna é uma sociedade perversa?


2 Perversão ou narcisismo?


Seguindo a trilha freudiana, podemos dizer que o conceito definidor da perversão é verleugnung, ou seja, o desmentido que o sujeito opera sobre a angústia de castração. Como que a verleugnung aparece na cena social, possibilitando a nomeação da sociedade como perversa? Qual seria a consequência da verleugnung na relação com o outro?


As reflexões sociais que tangenciam a questão da perversão aparecem nos comentários sobre as formas de relações utilitárias do mundo contemporâneo. Nesse caso, não está em jogo a estrutura perversa, mas sim a cena perversa desenvolvida em uma sociedade de consumo, em uma cultura narcisista e do espetáculo. Podemos pensar em uma civilização da perversão em que a personalidade narcisista domina o campo social. Segundo Lasch (1983) “Novas formas sociais requerem novas formas de personalidade, novos modos de socialização, novos modos de se organizar a experiência” (p. 76). É uma sociedade que opera o enfraquecimento do vínculo social, na qual o sujeito tende a minimizar seu campo de investimento libidinal. Nesse sentido, presenciamos ações que revelam uma falta de pesar, uma superficialidade, uma promiscuidade sexual e uma “escolha” por exprimir os conflitos através da atuação (act out).


Do ponto de vista psicopatológico, não é possível igualar, de maneira simples, cultura do narcisismo e perversão, mas não se pode negar o componente perverso dessa forma de organização cultural. Acreditamos que os perversos sejam narcisistas, mas nem todo narcisista é perverso. Entretanto, o próprio conceito de narcisismo padece de uma imprecisão, pois podemos pensar narcisismo como represamento da libido no eu; característica presente em quase todas as formas psicopatológicas. Talvez, o elemento que aponte para uma diferença das modalidades narcísicas presente nos quadros psicopatológicos seja a relação com a problemática da alteridade.


Assim, uma reflexão da perversão sob a ótica da psicanálise, ou seja, considerando a questão metapsicológica e clínica, deve articular as noções de castração, narcisismo e alteridade. Em sua reflexão metapsicológica sobre a perversão, Freud revela que na base desse modo de subjetivação encontramos um desmentido (verleugnung) da castração. Interessante enfatizar que esse é o destino da ideia, o afeto teria outra vicissitude (Freud, 1927/1974). Assim, o desmentido opera sobre a ideia da castração, mas o quantum afetivo implicado nesse movimento parece tomar o destino da angústia. É o que parece sugerir no texto inacabado sobre A divisão do ego no processo de defesa. Freud (1938/1974) revela:.


[...] temos de retornar à nossa história clínica e acrescentar que o menino produziu ainda outro sintoma, leve embora, o qual ele reteve até o dia de hoje. Tratava-se de uma suscetibilidade ansiosa (ängstliche) contra o fato de qualquer de seus dedinhos do pé ser tocado, como se, em todo o vaivém entre rejeição e reconhecimento, fosse todavia a castração que encontrasse a expressão clara[...] (p. 312).


Parece que nesse texto inacabado, Freud pretende deixar uma pista para trilharmos na direção da perspectiva da presença da angústia na perversão, que aparece como uma sombra no movimento pendular do desmentido. Quanto à questão do narcisismo na perversão, parece-nos lugar comum trabalhar a perspectiva do represamento de libido no eu, assim optamos por pensar a relação do perverso com algumas figuras alteritárias. Dessa forma, trabalharemos o conceito de narcisismo e o articularemos com a problemática da alteridade.


Representante da libido do eu, o conceito de narcisismo é apresentado por Freud como uma fase do desenvolvimento do sujeito que se situa entre o autoerotismo e a escolha objetal. Podemos pensar que após a dispersão das pulsões parciais, o investimento libidinal em uma unidade denominada eu seria a definição de narcisismo primário.


O narcisismo primário apresentaria uma onipotência que se expressa através de uma instância ideal, um ego ideal, que se vê na posse de toda perfeição. Para Freud (1914/1974), o ego ideal “se acha possuído de toda perfeição de valor” (p. 111). O ego ideal inclina-se para uma idealização. Nessa instância, o ego seria idealizado e levado ao máximo de onipotência. Assim, o ego ideal tipifica o narcisismo primário. O ego ideal só pode assumir essa posição através do olhar do outro, é o outro que investe libidinalmente no eu, colocando-o em um lugar idealizado. É o outro que, através do jogo especular, possibilita a percepção do corpo como unidade.


É, então, graças ao outro, que há reconhecimento do eu e da idealização. As reflexões sobre o eu e seus ideais aparecem no texto freudiano vinculadas à problemática da relação entre pais e filhos. Freud (1914/1974) revela que os pais idealizam o filho perfeito e a criança se vê no desejo dos pais. Assim, a imagem produzida pelos pais representa o ego ideal, sendo que a perfeição idealizada se encontra na imagem produzida e não na criança real. Para Moreira (2009), esse é o momento de se “confrontar e se comparar com um ideal que se formou fora e que se impõe de fora, sendo impossível de ser alcançado” (p. 234). Assim, o ego ideal levaria a uma busca narcísica de completude. É necessário ressaltarmos que na instância do ego ideal, o outro não se apresenta na sua totalidade alteritária. O outro é visto como um duplo de si, pois só o encontro com a angústia de castração possibilita o reconhecimento do outro como um outro. Entretanto, o outro é imprescindível para garantir ao eu a posição da idealização narcísica perfeita, mesmo que o eu não o reconheça.


A construção dessa unidade possibilitará o investimento nos objetos do mundo externo, sendo que a volta para o eu desse investimento objetal pode ser denominada de narcisismo secundário. Em, Sobre o narcisismo (1914/1974), Freud faz uma distinção de narcisismo primário e secundário. Ele apresenta o narcisismo primário como um estado primordial, anterior à constituição do eu, portanto autoerótico. Enquanto o narcisismo secundário corresponderia à recaída sobre o eu dos investimentos dos objetos do mundo externo. Assim, entre o narcisismo primário e o secundário estaria situada a escolha objetal e o reconhecimento da angústia de castração que aponta os limites para busca da perfeição narcísica do ego ideal, do narcisismo primário. A angústia de castração incide sobre o ego ideal, abrindo para o sujeito a possibilidade do reconhecimento da alteridade. No entanto, algumas pessoas se fixam na fase do narcisismo primário por mais tempo e mantêm traços dela em estágios posteriores de seu desenvolvimento.


Acreditamos que algumas características da pós-modernidade favorecem o aprisionamento no narcisismo primário e que o enlaçamento social aconteça de forma perversa. Características essas que por vezes foram cunhadas no próprio projeto moderno. Esse fato coloca sobre suspeita a tese de que haveria na passagem da modernidade para a pós-modernidade uma ruptura radical. Harvey (1992) nos diz que “há suspeitas de que o projeto do iluminismo estava fadado a voltar-se contra si mesmo e transformar a busca da emancipação humana num sistema de opressão universal em nome da libertação humana” (p. 23). Podemos apontar os campos de concentração nazistas como exemplo do projeto moderno de racionalização e dominação que se volta contra a própria humanidade. A lógica que se oculta por trás da racionalidade iluminista é a da dominação e da opressão. Segundo Harvey (1992), “a ânsia por dominar a natureza envolvia o domínio dos seres humanos, o que no final só poderia levar a uma tenebrosa condição de autodominação” (p. 24).


Essas características perversas da sociedade atual parecem estar vinculadas ao conceito de crueldade e à ideia de negação do outro em sua diferença radical. Não podemos reduzir a perversão à ideia de crueldade, apesar desta ser um ingrediente daquela. Porém, a crueldade pode ser pensada como uma ação que põe em ato a negação do outro e esta, por sua vez, é uma consequência do desmentir a castração, característica definidora da perversão. Assim, o que nos parece mais próximo da ideia do desmentir a castração é o ideal moderno de controle, de ultrapassar os limites ou de falta e negação dos limites. A racionalidade moderna e o antropocentrismo esperam que a ciência ofereça ao homem condições de controlar a vida. Podemos pensar que o arquétipo literário da condição do homem moderno é Fausto tentado por Mefistófeles. Para Harvey (1992) “o maior evento da história da destruição criativa do capitalismo (da modernidade) é a 2a guerra” (p. 27).


O espírito capitalista inflama a busca pelo prazer individual através do consumo dos objetos. Nesse cenário, o outro também é apresentado como um objeto para o consumo. No século XIX, a sexualidade passou a ocupar o centro das atenções e a preocupação em interpretar o desejo do outro era o tema recorrente. Na passagem do século XX para o XXI, o que passou a importar foi o consumo, não mais a sexualidade, ou melhor, até a sexualidade é um elemento do consumo. Não existe nenhum projeto coletivo que possa enlaçar os homens, nem a sexualidade ocupa o lugar do encontro entre os sujeitos, mas sim o encontro entre o sujeito e seu objeto de gozo corporificado em outro ser humano sem densidade alteritária. Não existe a preocupação de interpretar o desejo do outro, pois não existe o reconhecimento do outro como o diferente de si.


3 Culpabilização: “seja você mesmo, seja único: consuma”


Com Freud (1914/1974) vimos que o narcisismo primário do bebê se apresenta como condição de possibilidade do surgimento do sujeito. Assim é esperado na infância. Porém, sua persistência apresenta uma dimensão patológica. Defendemos a tese de que o narcisismo da cultura contemporânea reproduz o narcisismo primário. Segundo Costa (1988), a cultura do narcisismo é


aquela na qual o conjunto de itens materiais e simbólicos maximizam real ou imaginariamente os efeitos de Ananké, forçando o Ego a ativar paroxisticamente os automatismos de preservação (mecanismos de defesa), face ao recrudescimento da angústia de impotência (p. 165).


Nessa cultura, a “experiência de desamparo é levada a um ponto tal que torna conflitante e extremamente difícil a prática da solidariedade social” (Costa, 1988, p. 165). O sujeito fragilizado pela mídia se torna o único culpado por não possuir os signos do sucesso. É preciso lutar para sobreviver e isso inclui evitar o adversário: o sujeito se encontra só.


Segundo Bauman (1998), o homem moderno, através da autonomia da razão, busca a felicidade como um projeto coletivo. O preço dessa busca é perder a liberdade individual, mas a segurança é um subproduto. O homem pós-moderno tem toda liberdade para buscar o seu prazer individual, mas perde a segurança do coletivo. Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.


Dufour (2005) assevera que na pós-modernidade não estamos mais lidando com o sujeito neurótico caracterizado por uma culpabilidade compulsiva. O que o define é algo como o sentimento de onipotência quando ele é bem-sucedido e de impotência quando não o é. A culpabilidade que procedia de uma frustração implicava a elaboração de um projeto pessoal que, na modernidade, podia passar por muitos caminhos e se desdobrar em um dos campos em que uma compensação simbólica parecesse possível. Na posição de Dufour, o substituto do sentimento de culpa na pós-modernidade é a vergonha que exprime a intolerância narcísica à frustração e convoca uma remissão rápida.


Na tentativa de tamponar os limites do real, o sujeito pós-moderno não se submete a nada, somente a si mesmo e sua satisfação. A ciência, considerada juntamente com a arte como uma das grandes realizações do homem, não pode deixar de acompanhar tal perspectiva contemporânea. Nesse sentido, o corpo - para Freud (1930/1996) “condenado a decadência e a dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência” (p. 85), como uma das três direções de sofrimento apontadas por Freud em O mal-estar na cultura (1930/1996) - com o advento das novas tecnologias, é submetido a incontáveis inovações, buscando proporcionar aos homens a ilusão de um corpo e vitalidade ideais, o ideal de juventude.


Assim, a ordem do dia é a busca frenética pelo prazer do corpo. Prazer sem limites, porque todo o objeto de prazer pode ser consumido e devorado em uma lógica perversa que desmente os limites (a castração), pois, nem o outro é um limite.


A culpa, nesse sentido é exacerbada a esferas grandiosas, mas dessa vez não se trata do sentimento de culpa com relação ao outro, culpa estruturante que origina o superego. A culpabilização se manifestará no próprio eu com relação aos apelos contemporâneos de beleza, fruição do corpo e juventude.


O outro é colocado no campo macabro da manobra que nega sua dimensão de irredutibilidade aos desejos do eu. Os objetos descartáveis, efêmeros e voláteis são oferecidos continuamente ao sujeito. A relação entre o eu e o outro não precisa ser mediada pela fantasia. Não existe limite para o gozo, a cena perversa não precisa habitar o campo da fantasia por poder ser realizada, ou melhor, comprada em um sexshopping ou na internet. Nesse universo, o único valor é o eu, o mínimo eu desvencilhado de todos os atributos éticos que possam impedir sua buscar narcísica de prazer. Dessa forma, a cultura pós-moderna pode ser definida como “cultura narcísica”.


Roudinesco (2006) observa um movimento paradoxal com relação à “cultura do narcisismo”. Segundo a autora, quanto mais o mundo é unificado por uma economia de mercado, que contém em si as ilusões de uma universalidade, mais a afirmação narcísica progride. Trata-se da manifestação de uma pretensão do eu de se diferenciar da massa para melhor se adaptar a ela.


É nesse sentido que, na pós-modernidade, os ideais de ego estabelecidos pelo consumo e a promessa de felicidade impõem ao sujeito um excesso de exigências, instaurando um sentimento de culpabilização frente a essas demandas. O imperativo do gozo convoca o sujeito à realização de uma felicidade plena e impossível de ser atingida. Ao não corresponder às expectativas alçadas a um grau tão intenso, o sentimento de culpa em relação ao eu, característico do sujeito pós-moderno, tende a se intensificar.


Considerações finais

A relação entre o eu e o outro guarda uma infinidade de segredos e enigmas que jamais serão decifráveis. Uma relação que, sendo irredutível, deve ser explicitada em seu mistério, porque, como a psicanálise bem mostra, se não há um outro que não se refira a um eu, também não há um eu que não seja intrinsecamente constituído por um outro. Existem, pois, diferentes modalidades de encontro com a alteridade, de relação entre o “eu” e o “outro”, como a vida e a clínica não cessam de nos mostrar. É sobre essa diversidade e sobre as diferentes configurações psíquicas que tentamos refletir aqui para pensar sobre a culpa e o narcisismo presentes na tragédia moderna. Tragédia que, na sua condição caprichosa, pode ser revista, porque é possível produzir novos destinos para a libido do eu que se abra para o outro. Freud (1933[32] /1996) afirma: “Onde estava o id, ali estará o ego. É uma obra de cultura - não diferente da drenagem do Zuiderzee” (p. 84). A comparação de Freud com a drenagem do Zuiderzee, uma das maiores obras de engenharia da humanidade, parece indicar que o ego, como instância psíquica, é trabalho da cultura. Com efeito, no início da constituição subjetiva temos o id. Parte dessa instância, devido à proximidade e influência do meio externo, ainda para o autor, “[...] tornou-se fator decisivo para o ego; este assumiu a tarefa de representar o mundo externo perante o id” (Freud, 1933[32] /1996, p. 80). É justamente do contato com o mundo externo que o ego se formará. Desse modo, aquilo que diz respeito ao social, à cultura, será condição de possibilidade da constituição subjetiva, uma vez que o psiquismo está submetido à instância social a que está inserido. Assim, podemos asseverar que cada cultura trabalha no sentido de constituir um modo específico de subjetivação.


Entendemos que o modo de subjetivação contemporâneo se exprime socialmente pelo culto ao narcisismo. Trata-se do que Roudinesco (2006) refere à forma moderna de formação psíquica que substitui a tragédia do Édipo pela de Narciso. Na primeira, a soberania do eu, encarnada pelo pai da horda primitiva, diz sobre um encontro com a verdade. Na modernidade, de maneira avessa, prevalece a tragédia de Narciso, que subtrai qualquer encontro nessa ordem. Nas palavras da autora, “a formação psíquica que se traduz socialmente pelo culto do narcisismo, a obsessão por si mesmo é sempre portadora de uma rejeição do outro transformada em ódio de si e, portanto, em ódio pela presença do outro em si” (Roudinesco, 2006, p. 52).


Assim, culpa e narcisismo permeiam a tragédia moderna. Se, por um lado, o sentimento de culpa na pós-modernidade compõe duplo sentido, o narcisismo aponta para o insuportável da presença do outro.


Referências

Bauman, Z. (1998). Mal-estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Birman, J. (2005). Mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Carlson, M. (1997). Teorias do teatro: estudo histórico-crítico, dos gregos à atualidade. (G. C. C. de SOUZA Trad.). São Paulo: Fundação Editora da UNESP.

Costa, J. F. (1998). Narcisismo em tempos sombrios. In: J. Birman (Org.). Percursos na história da psicanálise. Rio de Janeiro: Taurus. (Obra original publicada em 1988).

Costa, J. F. (2005). O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond.

Dufour, D. R. (2005). A arte de reduzir as cabeças. Rio de Janeiro: Cia de Freud.

Freud, S. (1974). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (Vol 7). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1905).

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Freud, S. (1996). Totem e tabu. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (Vol. 13). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1913 [1912]).

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Freud, S. (1996). O mal-estar na civilização. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1930).

Freud, S. (1996). Conferência XXXI: a dissecção da personalidade psíquica. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (Vol. 22). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1933 [1932]).

Freud, S. (1974). A divisão do ego no processo de defesa. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. (Vol. 23). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1940/1938).

Harvey D. (1992). Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola.

Lasch. C. (1983). A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: 1983.

Moreira, J. O. (2009) Revisando o conceito de eu em Freud: da identidade à alteridade. [Versão eletrônica] Estudos e Pesquisas em Psicologia, 9 (1), 230-244. Recuperado em 11 de maio de 2012.

Roudinesco, E. (2006). A análise e o arquivo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.


GUILT AND NARCISSISM IN MODERN TRAGEDY

Abstract

Objective is the link between narcissism and the guilt in the context of a postmodern society. Is presented two aspects of the guilt. One, as the decline of the guilt in the civilization in your perspective which corresponds today to a social organization perverse and narcissistic. Another as an exacerbation of this feeling towards the subject itself, corresponding to the contemporary requirements of beauty, enjoyment and youth.

Keywords: Guilt; narcissism; postmodern.


CULPABILITÉ ET NARCISSISME DANS LA TRAGÉDIE MODERNE

Résumé

L’objectif est le lien entre le narcissisme et culpabilité dans le contexte d’une société postmoderne. Nous rapportons deux brins de le sentiment de la culpabilité. Premièrement, comme le déclin de la blâme sur votre point de vue civilisatrice, correspondant aujourd’hui à une organisation sociale perverse et narcissique. Un autre comme une exacerbation de cette sentiment vers le sujet lui-même, ce qui correspond aux exigences contemporaines de la beauté, la jouissance et de la jeunesse.

Les mots: Culpabilité; narcissisme; postmodernité.


CULPA Y NARCISISMO EN LA TRAGEDIA MODERNA

Resumen

El objetivo es el vínculo entre el narcisismo y la culpa en el contexto de una sociedad postmoderna. Se presentan dos aspectos de la culpa. Uno de ellos, como el declive de la culpa en la civilización, en la perspectiva que corresponde hoy a una organización social perverso y narcisista. Un otro, como una exacerbación estos sentimientos en relación en sí mismo, lo que corresponde a las necesidades actuales de la belleza, el disfrute y la juventud.

Palabras clave: Culpa; narcisismo; posmodernidad.


Recebido/Received: 29.6.2012/6.29.2012
Aceito/Accepted: 22.8.2012/8.22.2012


Ângela Buciano do Rosário*
Psicóloga, doutoranda e mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Bolsista da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). (Barbacena, Mina Gerais, Br.) angelabr@ig.com.br


Jacqueline de Oliveira Moreira**
Doutora em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora adjunta III e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), psicóloga clínica. (Belo Horizonte, Mina Gerais, Br.) jackdrawin@yahoo.com.br


1 Optamos por usar o termo pós-modernidade, mas não desconhecemos a polêmica em torno dessa expressão a respeito da ausência de consenso acerca da definição de uma terminologia que caracteriza a contemporaneidade. Entretanto, essa discussão é secundária ao nosso tema.
2 Essa renúncia diz respeito à pulsão agressiva que Freud aborda com o conceito de pulsão de morte.