Chamada Dossiê temático: Psicossociologia desde a América Latina

Com a experiência global de pandemia do COVID-19 e do isolamento social, vivemos um momento que nos tem colocado diante de inúmeras perguntas e questionamentos, mas também de muitas possibilidades para o presente e para o futuro.

Agravando o desenho imposto pela situação da pandemia, vivemos no Brasil e em outros países da América Latina um difícil momento histórico e político para a ciência, no qual há o risco de retrocessos nos recentes avanços duramente conquistados no campo da produção de conhecimento em direção a um horizonte pluri-epistêmico. Este cenário de incertezas e mudanças nos convoca a pensar que mundo queremos, como o construiremos e que conhecimentos apoiam esta tomada de posição. E nesta mesma trilha, nos convida também a pensarmos que psicossociologia podemos produzir. Em perspectiva, é preciso ressituar as psicossociologias que se têm construído e produzido em territórios latinoamericanos, e a que se propõem. A psicossociologia surge na Europa, por um lado, inspirada em estudos da psicologia social, com uma perspectiva psicanalítica e desenvolvimentista e, por outro, influenciada pelos estudos sociológicos de dinâmicas grupais. Embora na América Latina a psicossociologia tenha inicialmente seguido os rastros daquela de origem européia (e posteriormente também a estadunidense), há que se destacar a relevância da psicologia social crítica neste contexto que floresce com a crise da psicologia social e a Reforma Psiquiátrica nos anos de 1960’ e 1970’, historicamente constituída na região como Psicologia Sócio-Histórica com Silvia Lane (PUC/SP) e como Psicologia Comunitária Latino-americana, tendo como referência Martín Baró e Maritza Monteiro. Este levante contou fortemente com o diálogo produzido por outros movimentos críticos da época como a Pedagogia Crítica de Paulo Freire e a Pesquisa Ação Participante de Orlando Fals Borda, delineando nitidamente a psicossociologia como um campo interdisciplinar de conhecimento. Nas últimas décadas a psicossociologia vem se constituindo e se consolidando a partir de produções próprias, enquanto campo de conhecimento inter e transdisciplinar dentro da grande área das Ciências Sociais e Humanas, voltado para a composição de saberes e tecnologias que venham ao encontro dos problemas contextualizados e localizados na experiência dos países latinoamericanos, tanto em sua diversidade cultural e geopolítica, quanto em suas confluências enquanto povos colonizados. Neste sentido, também assume o estudo das relações coloniais desde uma perspectiva contrahegemônica. O presente Dossiê responde à necessidade e aos novos desafios que partem da afirmação de uma existência de conhecimentos que têm, em alguns casos, se (re)inventado e, em outros, se consolidando diante do contexto social, histórico e político na Amércia Latina. Objetiva-se, com isso, questionar, na psicossociologia, o cânone do saber euro centrado, produtor de rígidas fronteiras disciplinares definidas por um suposto “centro”, continuamente marginalizador do que vem a ser (pelo dito centro) considerado periférico. Interrogar a psicossociologia nos exige movimentações contra hegemônicas. Assim, reunir propostas ancoradas em idiossincrasias da experiência de estratos invisibilizados, em nossa região, pode favorecer a localização de outras pistas sobre como renovarmos o compromisso com a diversidade latino-americana. Neste sentido, respondem ao escopo deste dossiê trabalhos que reflitam sobre a psicossociologia enquanto ciência e prática de intervenção em suas múltiplas possibilidades, pautados na experiência viva daquilo que se tem produzido hoje enquanto América Latina.

 

Prazo de submissão: 12 de julho a 12 de setembro de 2020