A escuta de sujeitos surdos na clínica psicanalítica

Marcella de Paula Almeida, Priscilla Melo Ribeiro de Lima, Susie Amâncio Gonçalves de Roure

Resumo


O interesse da psicanálise em compreender os reflexos da surdez no psiquismo ainda é recente e pouco discutido e pesquisado. O presente artigo objetivou compreender as especificidades que a surdez pode trazer ao longo do processo de constituição psíquica e como o manejo da técnica psicanalítica pode ser uma via de voz para esses sujeitos silenciados e marginalizados. A partir do nascimento, a constituição psíquica de um bebê requer a presença física e afetiva de seus cuidadores. Não obstante, com o nascimento de um filho surdo, geralmente, os pais têm dificuldades e resistências em lidar com a quebra de suas fantasias, não se suprindo apropriadamente as necessidades físicas e afetivas do filho. Isso pode levar a especificidades na constituição psíquica desses sujeitos surdos. Ademais, a inserção precoce em uma língua, na Língua de Sinais, é fundamental para a constituição psíquica e cognitiva da criança surda, porém nem todos os pais conseguem perceber a tempo a importância dessa inserção. A escuta deficitária de suas demandas por parte dos cuidadores acarreta diversas dificuldades e falhas no processo de constituição psíquica. O sofrimento psíquico desencadeado por esse silenciamento e pela dificuldade de comunicação é frequentemente negligenciado até mesmo pelas ciências psicológicas. Nesse sentido, compreendemos também que a psicanálise desempenharia um papel político frente à sociedade, pois permitiria a escuta desses sujeitos silenciados e excluídos devido à surdez. Bem como Freud realizou em sua época ao proporcionar a escuta às mulheres histéricas e silenciadas na sociedade do final do século XIX. Mas, são necessários ajustes quanto ao setting analítico.

Palavras-chave


constituição psíquica; psicanálise; surdez

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