Câncer e corpo: uma leitura a partir da psicanálise

Deborah Melo Ferreira, Juliana Miranda Castro-Arantes

Resumo


A partir da experiência clínica com pacientes em um hospital de tratamento do câncer, este artigo propõe uma reflexão acerca dos efeitos subjetivos das alterações no corpo ocasionadas pelo câncer e pelo próprio tratamento médico – como os efeitos adversos da quimioterapia e as cirurgias mutiladoras. A psicanálise nos ensina que o corpo, no humano, não é prévio e não coincide com o organismo. Ele é inaugurado pela dimensão da satisfação pulsional, o que equivale a afirmar que não está a serviço das necessidades fisiológicas, fato que marca a diferença radical entre o homem e o animal. A pulsão está entre somático e psíquico, o que traz como consequência a produção de efeitos subjetivos diante de uma intervenção no corpo. No que concerne ao câncer, a modificação corporal decorrente do crescimento do tumor confronta o sujeito com uma quebra na vestimenta imaginária onde ele se reconhece, o que pode estar colocado também nas alterações decorrentes do próprio tratamento. Para além da ruptura imaginária, com o reflexo de um corpo estranho ao sujeito, o câncer pode estar relacionado ao traumático, que interrompe a vida de forma avassaladora. Com a leitura lacaniana, entendemos tal experiência a partir da dimensão do real, ou seja, o que escapa à simbolização e, por isso, a qualquer forma de elaboração subjetiva. O trabalho nesta clínica nos remete à aposta da psicanálise de um tratamento do real pelo simbólico, isto é, pela palavra. Na medida em que fala, o sujeito pode vir a advir na criação de uma saída frente ao que se apresenta enquanto excesso, impossível de apreender. 


Palavras-chave


psicanálise; câncer; corpo; pulsão; traumático; real

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