Sonhar e elaborar: grupo de sonhos como dispositivo de cuidado com adolescentes vítimas de abuso sexual
DOI:
https://doi.org/10.69751/arp.v15i29.5664Resumo
A violência sexual consiste em um fenômeno social composto por múltiplos elementos, envolvendo aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos, que se manifestam nas relações de classe, gênero e raça/etnia. No caso de crianças e adolescentes, é reforçada pela invisibilidade legitimada e pela condição de propriedade a eles imposta, sendo produzida por relações de poder. O objetivo deste artigo é apresentar um dispositivo de cuidado a adolescentes vítimas de abuso sexual que consiste em um grupo terapêutico que tem a narrativa onírica como mediadora. Trata-se da apresentação de resultados parciais de pesquisa de doutorado, realizada em um serviço de saúde que oferece atendimento a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Partindo de uma perspectiva psicanalítica, a pesquisa se propôs a investigar aspectos do sofrimento sociopolítico que envolvem as dinâmicas das relações familiares, utilizando a narrativa onírica como recurso de acesso ao inconsciente. A produção de dados envolveu pesquisa bibliográfica, entrevistas individuais, o registro de sonhos pelas participantes por dois meses e, por fim, a realização de quatro encontros do grupo, que consistiu ao mesmo tempo em instrumento de produção de dados e dispositivo de cuidado. Consideramos que o sonho é a própria expressão da intersubjetividade e exploramos o dispositivo grupal como espaço de compartilhamento, colocando o sonho como mediador na relação entre as participantes. Observou-se que foram feitas elaborações a partir das associações coletivas, as quais foram interpretadas pelo próprio grupo com mediação da pesquisadora. As principais categorias de conteúdo identificadas foram: 1) sonhos com o trauma, com a experiência desmentida e 2) tentativas de elaboração, com sonhos de sobreviventes sem o apoio esperado. Além disso, observou-se que as participantes encontraram continência no grupo, com identificação mútua e acolhimento, o que teve importantes reverberações na vida de cada adolescente.