A propósito de Lacan, leitor de Melanie Klein, de Marie-Claude Thomas
DOI:
https://doi.org/10.69751/arp.v15i29.5740Resumo
Apresentamos ao público brasileiro a tradução do prefácio escrito por Laurent Cornaz para o livro de Marie-Claude Thomas (Érès, 2012). O psicanalista francês destaca a originalidade da abordagem de Thomas ao examinar os “empréstimos críticos” que Jacques Lacan fez da teoria kleiniana. A obra analisada por Cornaz estrutura-se em cinco capítulos que traçam os elementos essenciais dos vínculos teóricos entre Lacan e Klein, sem deixar de assinalar as dissonâncias presentes. A densidade teórica dos primeiros capítulos – onde se abordam a teoria da angústia, do ego e do narcisismo – revela um diálogo constante em que cada observação freudiana encontra suas ressonâncias tanto em Klein quanto em Lacan. A interpretação desenvolvida pela autora demonstra cuidadosamente como a clínica lacaniana se distingue radicalmente da clínica kleiniana. Enquanto em Klein o eixo predominante reside na fantasia como acesso ao inconsciente, Lacan concebe o inconsciente como estruturado pela linguagem. Talvez um dos aspectos mais relevantes do livro seja precisamente sua capacidade de manter um diálogo fértil entre Freud, Klein e Lacan, o que consequentemente atualiza o estatuto da psicanálise enquanto teoria. Trata-se de ler Lacan lendo Melanie Klein: analisar passo a passo os seminários, os escritos de Lacan e os textos de Klein, estabelecendo um vínculo direto que permite identificar os pontos de recusa, apoio e articulação que Lacan elaborou – não de forma sistemática, mas consistente – acerca do que convencionamos chamar de teoria kleiniana. Dessa hegemonia que o pensamento kleiniano impôs ao campo psicanalítico entre as décadas de 1930 e 1960, Lacan desvinculou-se precocemente, forjando sua própria identidade já em 1953, com a conferência “O Simbólico, o Imaginário e o Real” como elementos estruturantes da prática analítica.